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Mãos sobrepostas.

9 maio

Entre os milhares de pequenos detalhes que sempre me chamaram a atenção na maneira como os meus pais lidam um com o outro, estão as mãos que eles, delicada e religiosamente, posicionam uma sobre a outra toda vez que o meu pai está dirigindo. Sei que isso não parece grande coisa, mas desde que eu me dou por gente é assim. E foi diante de gestos simples como esse que cresci me perguntando como é possível que duas pessoas completamente diferentes possam se dar tão bem.

Digamos que sou jovem demais para ter certezas sobre o amor, mas eles me ensinaram, sem perceber, algumas lições básicas sobre carinho e respeito. Acho linda a forma como são companheiros para as coisas que realmente importam e a maneira como entendem as diferenças (minha mãe parece ter sido ligada na tomada, enquanto o meu pai é daqueles que, às vezes, dá vontade de sacudir; mas ambos têm em comum o fato de serem, às suas maneiras, as pessoas mais doces que eu conheço). Também admiro seus espíritos e aparências jovens demais, mas sem perder o jeitão de pai e mãe (nunca esqueço o dia em que fomos todos – eu, meu pai, minha mãe e meu irmão – fazer exame médico em um clube; a médica perguntou se éramos todos irmãos, e eles, claro, passaram a semana toda se gabando do fato).

mami, papi

 Hoje vamos comemorar os 24 anos de casados dos dois. Já posso prever o roteiro da noite: primeiro, eu e meu irmão caçoamos do fato de que nossos pais sempre escolhem os mesmos restaurantes (em uma ‘vasta’ lista de cerca de três opções que eles cultivam desde que se casaram); na sequência, vamos até um desses três restaurantes; lá, dois de nós pedem peixe, outros dois pedem massa. Durante o jantar, minha mãe conta as histórias de quando começou a namorar com o meu pai, aos 15 anos de idade, e nós, mesmo sabendo do final de cada uma, achamos graça da imagem de menino tímido que temos do nosso pai na sua adolescência. Depois, a noite termina. E nós voltamos para a casa com a profunda sensação de que, se não fosse esse amor entre os dois (talvez o mais sincero que eu já vi), não seríamos tão felizes.

Por Flávia Elisa

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