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Quando uma gargalhada faz falta.

2 maio

Nem me lembro quando tinha sido a última vez que eu havia sonhado com ela, mas me lembrei perfeitamente da sensação que é acordar depois desses sonhos. Quando eu era pequena, costumava sonhar mais com a minha avó. Eram sempre variações do mesmo sonho: um portão se abrindo, um vento incômodo, sua gargalhada estridente e inesquecível. Quando a gente é pequeno, não compreende certas coisas. Mas a nossa estranha percepção infantil sobre o mundo faz algumas coisas ficarem marcadas para sempre.

Eu tinha cinco anos de idade quando a minha avó morreu. Não tenho memórias do dia exato em que aconteceu pelo simples fato de que eu era pequena – e apegada demais a ela – para que minha mãe, ou qualquer outra pessoa do mundo, tivesse coragem para me contar que a minha avó nunca mais estaria ali para brincar de quebra-cabeças comigo. Mas, ainda que ninguém me contasse, cedo ou tarde eu perceberia que as coisas estavam diferentes. Primeiro, minha mãe, arrasada pela tristeza, iniciou uma maratona lá em casa, que consistia em recolher fotos das duas por dias a fio. E eu iniciei uma maratona que consistia em tentar reconfortá-la com a minha imensa sensibilidade de uma criança que, mesmo sem entender o que estava acontecendo, ficava triste por vê-la daquele jeito.

É claro que esse seria apenas um detalhe entre os sucessivos acontecimentos que, pouco a pouco, se tornariam parte de nossas vidas e nos fariam ter a certeza de que elas nunca mais seriam as mesmas. Aos poucos, tivemos que nos acostumar com a falta da minha avó, que sempre foi o centro da nossa união. Sem ela, nada mais fazia sentido. Por isso que, pouco a pouco, e tristemente, cada vida tomou um rumo diferente. Claro que nós (quando digo ‘nós’, me refiro a todos os que eram ligados à minha avó; tios, tias, primos, meu avô e meus pais) ainda nos amamos e somos felizes. Acho engraçado, aliás, como a vida nos obrigada a simplesmente continuar caminhando. Mas não temos mais aqueles almoços de família aos domingos, muito menos aqueles barulhentos Natais na casa dela.

Mas alguns elos são impossíveis de interromper. Penso nisso toda vez que estou na casa do meu tio, irmão da minha mãe e filho caçula da minha avó, claramente o membro da família que, entre todos nós, é o que mais sente a falta dela. Sinto um pouquinho dela sempre que estou perto dele, ou sempre que ele me chama de ‘princesa’ (jeito que minha avó me chamava desde que nasci, e que me faz manter viva a lembrança da voz dela e da entonação que ela dava toda vez que chamava por mim). Também sinto um pouquinho dela em todos os aniversários, ou sempre que conquisto algo e imagino o quanto ela estaria feliz por mim (quando eu era pequena, ao contrário, tinha medo de fazer coisas erradas com medo de que, de algum lugar do céu, ela estivesse me observando).

Pra ser bem sincera, sinto um pouquinho dela toda vez que respiro. E toda vez que sonho com ela, inexplicavelmente, acordo em paz.

Por Flávia Elisa

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